O termo cultura suscita muitas
interpretações. Retiro, a priori, do dicionário Aurélio, dois significados: “1.
O complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e
doutros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e
característicos de uma sociedade: civilização. 2. O desenvolvimento de um grupo
social, uma nação, etc., que é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento
desses valores; civilização, progresso”. O que podemos apreender sobre tais
significados? Vejamos alguns aspectos.
A cultura está presente em todas as
ações da sociedade. Calar-se ou inconformar-se, por exemplo, são condutas
culturais. Perceber-se enquanto cidadão/cidadã também é um condicionante
cultural e histórico. Entretanto, como nós, grapiúnas e, especialmente, nós
itabunenses, temos vivenciado essas percepções culturais e históricas? Temos
calado ou temos nos inconformado? A julgar pela ausência da nossa sociedade
civil organizada local, diante do descaso com que tem sido tratado o nosso
Centro de Cultura Adonias Filho – CCAF –, passando por uma “reforma” que se
arrasta de maneira absurda e indolente, justo no ano em que comemoramos o
centenário desse genial escritor itajuipense, a resposta mais apropriada seria:
temos calado, nos ausentado e nos subordinado bovinamente!
Cultura não são eventos isolados. Reformas
não são obras intermináveis. Cultura não pode ser reduzida a entretenimento,
bem como não pode ser confinada à “alta cultura”, erudita e hermética. Reformas
precisam começar e terminar. Cultura é história e memória. Reformas são
compromissos assumidos para dar melhor forma, corrigir, equipar, fortalecer,
preservar. Mas, infelizmente, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia –
Secult – que deveria prestar mais atenção aos seus compromissos, e,
evidentemente, à cultura, parece não entender o que seja reforma e muito menos
cultura! E, assim sendo, evidencia-se o desinteresse e a moleza para devolver a
Itabuna e à Região cacaueira o Centro de Cultura Adonias Filho.
Para se ter uma pequena ideia da
gravidade do caso, atente-se, prezado(a) leitor(a), para o seguinte fato: segundo
um representante da Secult, de passagem aqui por Itabuna, esse ano a Secretaria
de Cultura dispõe apenas de 10% do orçamento total que era destinado à Secult no
ano de 2013! Pode?
Evidentemente que, se o estado se
ausenta e a sociedade civil organizada se cala, forma-se, deste modo, a
combinação perfeita para o descaso. Assim o tempo passa e nada acontece. Em
outras palavras: o CCAF continua fechado, submerso numa “maquiagem”, a título
de reforma, que nem de longe está à altura da categoria dos nossos artistas e
das artes da Região, preso em obras morosas, minguando dia após dia. A cultura,
portanto, que deveria estar sendo incentivada, apoiada, exultada, e abrilhantada,
fica esquecida, escanteada, apequenada, retraída justamente por aqueles que
deveriam lutar por ela: a sociedade civil organizada e a Secretaria de Cultura
do estado.
Nas palavras de Bertolt Brecht
(1898-1956), dramaturgo, poeta e encenador alemão, cultura “é pensar, é
descobrir”. Ao cruzarmos os braços diante do que está acontecendo no CCAF
abdicamos dessas possibilidades que nos humanizam e podem nos conduzir ao
desenvolvimento intelectual e espiritual, tanto quanto à autoconsciência. Enquanto
isso... O centro de Cultura Adonias Filho continua à míngua!
E, talvez, como um dos objetivos dessa
“reforma” no CCAF tenha sido apagar a história e a memória das artes grapiúna,
eis que os “reformadores” cobriram de preto o Mural da Alameda Jorge Amado (a
propósito, a sugestão do “Mural da Fama” foi de Walmir do Carmo). E, deste
modo, provavelmente, tenham cumprido aquele termo: apagaram as pinturas daqueles
que contribuíram para nossa cultura e/ou foram homenageados por suas
contribuições culturais. Registre-se, então, para a História e para a memória alguns
dos nomes apagados: Ramon Vane, Zébay, Marcelo Lobo, Diovane Tavares, Walmir do
Carmo, Jackson Costa, Alba Cristina, Jean Costa, Jafet Ornelas, Zélia
Possidônio, Cocó, Ary PB, Aldo Bastos, Marcos Cristiano, Lelo Filho, Sabará,
Fernando Caldas, Raquel Rocha, Gal Macuco, Sônia Amorim, Emerson Mozart...
O cantor e compositor
Arnaldo Antunes fez uma canção (“Cultura”) que termina deste modo: “o potrinho
é o bezerro da égua / a batalha é o começo da trégua / papagaio é um dragão
miniatura / bactérias num meio é cultura”. Tomara Antunes tenha razão!
Cláudio Zumaeta - Historiador
graduado pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC, Ilhéus – BA) Administrador de Empresas graduado pela
Universidade Católica de Salvador (UCSAL, Salvador – BA). Especialista em
História do Brasil (UESC, Ilhéus – BA). Membro da Academia Grapiúna de Letras
(AGRAL).
TEMO PELO DESTINO DO CCAF. DO JEITO QUE AS COISAS ACONTECEM NA CENTENÁRIA ITABUNA, PELO QUE CONHEÇO DA VIDA CULTURAL PREGRESSA DA CIDADE, AFIRMO SEM MEDO DE EXAGERAR: TABOCAS CUIDAVA MELHOR DA CULTURA.
ResponderExcluirABAIXO UM TEXTO DE TELMO PADILHA NA CONTRACAPA DO LIVRO DA PROFESSORA HELENA BORBOREMA “LAFAYETTE DE BORBOREMA – UMA VIDA, UM IDEAL”. – SÓ PARA COMPARAR COM O HOJE DE ITABUNA:
“No tempo de Lafayette de Borborema existiam em Itabuna uma biblioteca pública, um piano para concertos, um grêmio Literário, o teatro era feito em residências, os saraus varavam a noite. Quem conta isso é Helena Borborema. Seu livro é um belo inventário escrito com amor. A gente fica com uma inveja danada daquele tempo, quando as pessoas, ditas ignorantes, sabiam no entanto ser dignas e inteligentes. Não eram nem brutas nem desalmadas
Na vila não existiam carros, mas as ruas eram limpas e as fachadas das casas recebiam tinta nova todos os anos. Não se poluía o Cachoeira. Matava-se , é verdade, por ambição ou paixão, ignorância ou orgulho, mas a verminose e a subnutrição não imolavam crianças indefesas como agora. Cinco, em média, por dia. Quem não ganhava para comer não morria de fome. A caridade era um dever. O amor à terra um sentimento generalizado.
Ao falar de seu pai com a modéstia que dele herdou, ressaltando-lhe as virtudes que justificariam o livro que sobre ele escreveu. Helena Borborema só não é ela mesma quando se detém na descrição de ambientes e paisagens: aí sua imaginação se solta, é minuciosa e pródiga, nada lhe escapa. É uma escritora. Mesmo descrevendo, seleciona, e selecionando, julga. Não reproduz apenas: traduz. E, traduzindo, participa-nos e participa da História.
Um livro despretensioso o seu, inclusive pela avareza do número de páginas. A gente fica esperando que ela diga mais, e ela não diz. Mas diz o suficiente para que saibamos que Lafayette de Borborema era em sociedade o que era em família, e que a terra que escolheu para viver e morrer não era apenas uma terra de brutos e desalmados, porque os brutos a amavam como já não nos esforçamos por amar.
Para os jovens, ou alguns velhos que não envelheceram completamente, este livro põe por terra o vaticínio ruibarboseano de que um dia o homem teria vergonha de ser honesto. Sob esse aspecto, “Lafayette de Borborema – um ideal, uma vida”, é um livro subversivo, porque nos prova o contrário. Isto é, que a virtude da honestidade é uma coisa que não morre e que produz mais alegrias do que comumente se admite.
TELMO PADILHA”
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Uma pergunta: Alguém aqui em Itabuna ainda se lembra da Profª. Helena Borborema? E de Telmo Padilha?